SER FELIZ NO AMOR – SERÁ SORTE?

SER FELIZ NO AMOR – SERÁ SORTE?

Ouvimos muitas vezes dizer que “sorte ao jogo, azar no amor; sorte no amor, azar ao jogo” 

Lembro-me de, quando era mais nova, pensar muitas vezes: ” Ah! Eu não quero ter sorte ao jogo”. Está mesmo a ver-se porquê!

Pois bem… Será que ser feliz no amor é uma questão de sorte? Ou nem por isso? Vamos descomplicar.

De acordo com os dados mais recentes acerca dos relacionamentos, parece que os amores felizes, as relações saudáveis e os parceiros duradouros, têm os dias contados. Um em cada sete casamentos acabem em divórcio. E a coisa complica-se com as segundas relações.

Por isso, é natural que haja cada vez menos pessoas dispostas a investir numa relação, pois têm medo que o amor não dê certo.  

Acontece que as relações amorosas felizes constroem-se em conjunto, destroem-se em conjunto e, muitas vezes (cada vez mais), reconstroem-se em conjunto. Sorte?  A sorte dá muito trabalho.

O que é verdadeiramente importante ser, sentir e fazer e para ser feliz no amor?

Há três aspetos muito importantes que nos ajudam a ser felizes no amor:

1- SER FLEXÍVEL 

2- EQUILIBRAR A MENTE EMOCIONAL E A MENTE RACIONAL

3- RELATIVIZAR 

SER FLEXÍVEL é ser capaz de ampliar o seu mapa para ir de encontro ao mapa do outro. Dentro de limites, é claro. Mas uma das coisas que mais prejudica uma relação é sermos demasiado rígidos em relação a esses limites. E mantermos o nosso mapa… inalterável. 

Alguns casais escolhem o caminho da teimosia ou da resistência à mudança, porque confundem flexibilidade com fraqueza. Mas, na verdade, flexibilidade é o oposto de fraqueza. 

Podemos ser fiéis aos nossos valores e às nossas crenças e, ainda assim, ser capazes de ir ao encontro do mapa do outro e permanecer abertos a mudanças pessoais que irão, certamente, melhorar a relação. 

Da mesma forma que treinamos a flexibilidade do nosso corpo para alcançar a harmonia e o equilíbrio de belos asanas (posturas e posições de yoga) também precisamos de treinar os nossos pensamentos e ações dentro da relação para que ela alcance uma harmonia e equilíbrio saudáveis.

Só que esse resultado não surge naturalmente. Tal como no yoga trabalhamos o corpo e a mente para chegar a um resultado feliz, também em casal temos que trabalhar as relações para que elas resultem. Ser feliz no amor não é uma questão de sorte. Dá muito trabalho. 

Na verdade, uma pessoa até pode ter a sorte de ter um corpo mais flexível. Uma estrutura mais elástica. Mas isso não lhe garante qualquer êxito. O êxito só virá com muito trabalho e persistência. E depende muita do seu investimento para que resulte.

EQUILIBRAR A MENTE EMOCIONAL E A MENTE RACIONAL é um exercício muito útil em qualquer contexto mas, nas relações, ele é especialmente importante. Principalmente para os casais que procuram o tão famigerado equilíbrio na sua vida a dois.

Quando estive na Índia, um dos primeiros impactos que tive, foi com o trânsito – infernal e caótico! Pelo menos foi assim que a minha mente o interpretou. E a minha mente começou logo a fazer mail e uma perguntas ainda durante a 1ª viagem que fizemos entre o aeroporto e o hotel:

“Como é possível conduzir no meio de tantos veículos, de tanta gente, de tantos animais, de tanto barulho? Como é possível circular por estradas em tão mau estado e sem qualquer sinal de trânsito? Como é possível conduzir no meio desta confusão? 

Esta imagem foi, para mim – uma turista ocidental – a imagem do caos!

Mas foi então que alguém me disse que os indianos conduzem com uma ideia fixa: “ceder e perdoar“. 

– Como? 

– Cedem a passagem e perdoam. 

Na Índia, cada condutor avança através de qualquer (mínimo) espaço que encontre no meio do trânsito, e perdoa todos os outros que fazem o mesmo. 

Curiosamente, ao contrário do que acontece aqui no ocidente, onde temos a sorte de ter grandes estradas e normas bem definidas, na Índia as regras têm um filtro mais emocional do que racional. E o resultado é surpreendente.

Apesar da aventura que é conduzir em cidades como Agra, Déli, Jaipur ou Bombaim, a verdade é que ali se avança com uma tal leveza e uma felicidade tão realista, que eu não pude deixar de pensar, nessa experiência, como uma verdadeira lição para nós, ocidentais. 

E, curiosamente, para a forma como conduzimos (dentro de) as nossas relações. O que prevalece? A razão ou as emoções? Estamos mais focados em ter razão e em julgar o outro, ou em ceder e perdoar? Talvez a Índia não seja o verdadeiro exemplo de uma sociedade ideal. Ou o paraíso das relações ideais. Mas a forma como vivem e como pensam, dá-nos muito bons exemplos para trabalhar o equilíbrio entre as emoções e a razão. Porque só assim podemos ser felizes. E construir uma relações saudáveis.

RELATIVIZAR. A capacidade para nos elevarmos acima de um problema e conseguirmos “ver a floresta”, é uma técnica muito usada no coaching e com na programação neurolinguística. A minha amiga/formadora/mentora Ana Maia Gonçalves dava a esta técnica um nome muito engraçado: helicopterar. Os anos passaram e eu atualizei a expressão para”dronar“. 

O que acontece é que algumas pessoas, quando enfrentam uma situação de stress ou tensão, têm tendência para reforçar a sua posição, vincar a sua perspetiva e focar-se no que está a sentir. E esta é uma atitude que tende a ampliar o problema. E a distância entre o casal.

Ora, uma relação saudável não se constrói à volta do umbigo de cada um. Nem ignorando o que o outro está a ver, a sentir e a perceber. 

Dronar ou relativizar ajuda a criar uma distância relativa do problema e de nós próprios. É como se, de repente, conseguíssemos observar-nos e ouvir-nos-nos a partir de uma posição exterior ao nosso próprio corpo.

É um excelente exercício. De desenvolvimento pessoal, também. Que dá trabalho, que é exigente, mas muito gratificante. 

“O inferno são os outros” – escrevia Sartre. Talvez esta seja a razão por que duas mentes tão brilhantes (ele e Simone de Beauvoir) tiveram percursos tão erráticos no amor.

 Falta de sorte? Parece que não!…

Até porque ser feliz no amor não é, definitivamente, uma questão de sorte. Dá muito trabalho.

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